Presidente dos EUA Donald TrumpFoto: EFE/EPA/SHAWN THEW
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A decisão do Departamento de Estado norte-americano de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Globais não é um mero ajuste burocrático de inteligência. É o atestado internacional de que as instituições brasileiras falharam por opção. Ao colocar as duas maiores facções do país no mesmo patamar de grupos como o Hamas e o IRA, Washington escancara uma realidade que Brasília tenta maquiar há anos: o crime organizado no Brasil deixou de ser um problema de segurança pública para se tornar uma ameaça de segurança hemisférica.

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O filósofo político Thomas Hobbes, em sua clássica análise sobre o poder, argumentava que a única razão legítima para a existência de um governo é a sua capacidade de garantir a ordem e proteger a vida dos seus cidadãos. Quando o poder central recua por omissão, permitindo que cartéis cobrem impostos, controlem territórios inteiros, imponham tribunais do crime e até vendam internet por meio de provedores próprios, cria-se um vácuo. Os EUA não estão violando a nossa soberania por capricho; eles estão ocupando o espaço que o Estado brasileiro abandonou. A nossa autoridade não foi roubada, ela foi entregue pela incompetência.

“A obrigação dos súditos para com o soberano dura enquanto e não mais do que dura o poder mediante o qual ele é capaz de os proteger.”Thomas Hobbes

Hobbes, o pai do Estado moderno, deixa claro: a única razão para pagarmos impostos e obedecermos a leis é a garantia da nossa segurança física. Se o Estado não consegue desarmar o crime e proteger o cidadão na rua, o contrato social perde a validade.

A reação em Brasília revela os contornos da hipocrisia política e explica o pânico silencioso que tomou conta da ala governista. Não é segredo para ninguém que os setores ligados ao PT e à esquerda sempre rechaçaram, de forma veemente, qualquer tentativa de endurecer a legislação brasileira para classificar facções criminosas como grupos terroristas. Sob a justificativa retórica de “preservar direitos humanos” ou evitar a criminalização de movimentos sociais, a ala petista blindou o debate penal e alimentou uma política de desencarceramento que, na prática, fortaleceu as lideranças que hoje comandam o crime de dentro das celas. Ver o governo de Donald Trump ignorar a diplomacia brasileira e carimbar esses grupos como terroristas globais é um soco no estômago do progressismo de gabinete, que agora assiste, encurralado, à ruína de sua narrativa de segurança (que mais parece um filme de ficção).

Mas há um perigo real no horizonte, e ele não escolhe partido. Nicolau Maquiavel, em O Príncipe, alertava sobre o erro fatal de um governante que, por fraqueza, recorre a uma potência estrangeira para resolver seus problemas domésticos. Na geopolítica real, não existem salvadores da pátria; existem interesses. A canetada de Washington, celebrada pela oposição como uma vitória moral, traz consigo o risco real de sanções financeiras severas capazes de asfixiar bancos e empresas brasileiras legítimas sob o pretexto de asfixiar o tráfico. O narcoterrorismo virou a chave jurídica para que os EUA intervenham onde e quando bem entenderem, usando o sistema financeiro global como arma de coerção.

“Os homens ofendem antes a quem amam do que a quem temem.”Nicolau Maquiavel

O mestre do realismo político ensina que a diplomacia do “amor” e das notas de repúdio não funciona no tabuleiro global. Washington age pelo temor e pela força econômica; o poder internacional respeita o tamanho da sua autoridade, nunca a sua boa vontade.

É reconfortante o esforço de certos analistas e colunistas de gabinete que, do alto de seus condomínios fechados, enquanto bebericam seus cafés gourmet de cápsula e ajustam o cachecol no ar-condicionado, ainda gastam linhas e mais linhas debatendo uma suposta “ameaça à soberania nacional”. Alguém precisa avisá-los que não se perde o que já não se tem. A nossa soberania não corre o risco de ser relativizada por Washington amanhã; ela já foi entregue, na prática, ao domínio territorial das facções criminosas ontem. Quando o Estado recua e cede as fronteiras e as periferias para o crime organizado, o vácuo de poder é inevitavelmente preenchido. O Brasil real não escolhe mais se quer manter sua independência, mas sim por qual força prefere ser invadido: se pela humilhação doméstica do narcoterrorismo ou pela intervenção cirúrgica de uma potência estrangeira.

brasilia, palacio do planalto
Reprodução

O enquadramento que passa a valer em junho mudará a mecânica do dinheiro, mas o preço colateral dessa conta será cobrado do mercado nacional. Enquanto a esquerda finge que o problema não é com ela, o cidadão de bem continua no meio do fogo cruzado. No fim das contas, a grande ironia da geopolítica tupiniquim é fascinante: os defensores da soberania nacional descobrem que suas fronteiras agora são vigiadas por satélites de Miami. Resta saber se, entre uma nota de repúdio do Itamaraty e as reações do cenário político, alguém vai avisar a Washington que o Brasil prefere continuar administrando a sua própria falência.

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Igor Raphael Portal Inside

By Igor Raphael

Igor Raphael é jornalista e colunista, atual acadêmico de Direito na UNITAU, com atuação voltada à cobertura política e cotidiana do Vale do Paraíba e Nacional. Desenvolve análises sobre decisões do poder público, bastidores institucionais e comunicação política, aliando apuração factual à leitura crítica do cenário público. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado ao acompanhamento de temas de interesse coletivo, com foco na realidade regional, valorizando a pluralidade de fontes, o debate qualificado e a responsabilidade editorial.