O cenário político no Rio de Janeiro atravessa um momento que beira o surrealismo, mas os números mostram que, para o cidadão comum, a surpresa tem sido positiva. Uma pesquisa recente da Futura Apex aponta que 52,9% dos eleitores fluminenses aprovam a atuação do governador interino, o desembargador e Presidente do TJRJ, Ricardo Couto. É um índice curioso para alguém que não passou pelas urnas, mas que explica muito sobre o cansaço do povo com a política tradicional e os constantes escândalos da política no estado.
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Desde que assumiu o posto em 23 de março , Couto iniciou um verdadeiro pente-fino na estrutura do Palácio Guanabara. Ele não está ali para fazer política de coalizão ou agradar bases eleitorais, e isso ficou claro quando assinou a exoneração de aproximadamente 1,6 mil servidores comissionados. O foco tem sido enxugar a máquina pública e estancar o loteamento de cargos que servia de combustível para a gestão anterior. Agora, qualquer nova nomeação para cargos em comissão precisa passar obrigatoriamente por uma análise de integridade do Gabinete de Segurança Institucional. É o tipo de medida técnica e impopular entre políticos que raramente vemos um candidato eleito tomar, já que costumam ser reféns de acordos e indicações parlamentares.
Como era de se esperar, essa limpeza gerou uma revolta generalizada na Assembleia Legislativa. Os deputados estaduais, acostumados a controlar fatias do orçamento e secretarias estratégicas, entraram em pé de guerra contra o interino. A coisa ficou tão feia que surgiram ameaças de bastidores, reveladas pela imprensa, sobre a divulgação de uma suposta lista de amantes ligadas a desembargadores que estariam recebendo salários na Alerj sem trabalhar. É a política fluminense em sua essência mais pura e suja, usando a chantagem como ferramenta para tentar frear um governo que decidiu fechar a torneira do apadrinhamento e combater os chamados funcionários fantasmas.

O bloco do PL, liderado pelo ex-governador Cláudio Castro e pelo atual presidente da Alerj e pré-candidato a governador, Douglas Ruas, tenta emplacar a narrativa de que Ricardo Couto é um governante ilegítimo. Mas é preciso lembrar como chegamos a esse ponto. Cláudio Castro renunciou em uma tentativa desesperada de escapar de uma cassação no Tribunal Superior Eleitoral. A manobra não funcionou, e ele acabou condenado à inelegibilidade até 2030 por abuso de poder político e econômico, especialmente no escândalo das folhas de pagamento secretas do Ceperj e da Uerj nas últimas eleições. Com a renúncia anterior do vice Thiago Pampolha, que foi para o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o afastamento do Ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar pelo STF por suspeitas de ligações com facções criminosas, a linha sucessória desmoronou até chegar ao presidente do Tribunal de Justiça.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal não decide se teremos eleições diretas ou indiretas para o mandato tampão, processo que está parado com o ministro Flávio Dino, o estado segue sob a gestão técnica de Couto. E aqui entra o ponto central dessa reflexão: como pode um homem que não foi eleito pelo povo estar fazendo em poucos meses o que não foi feito em anos por aqueles que receberam milhões de votos? O fato de um interino técnico ter essa aprovação popular levanta um questionamento incômodo sobre a nossa democracia: será que o fluminense realmente sabe votar?
A política muitas vezes vira um oba oba danado e o povo acaba agindo como maria vai com as outras. Vemos isso principalmente em regiões mais carentes, onde o voto é frequentemente negociado por conveniência própria ou decidido por uma ideologia barata, sem qualquer análise séria de propostas ou capacidade administrativa. O eleitor vota no candidato que parece ter mais chance ou naquele que promete algo imediato, mas depois sofre as consequências quando o Estado para de funcionar direito e os escândalos de corrupção explodem na cara de todos.
Se a população aprova o trabalho de um magistrado que aplica critérios técnicos, corta privilégios e exige fichas limpas, por que na hora da eleição o voto vai para o político profissional desqualificado? É uma reflexão necessária. O povo parece gostar da ordem e da eficiência quando elas aparecem por acidente ou imposição jurídica, mas na hora de escolher ativamente, muitos ignoram o perfil técnico e preferem o politiqueiro de sempre. Isso prova que a aprovação ao interino é, na verdade, um atestado de incompetência que damos a nós mesmos como eleitores.
Olhando para o horizonte de outubro de 2026, a disputa pelo Palácio Guanabara já começa a se estruturar com nomes bem conhecidos. Temos o Ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), que desponta como favorito nas pesquisas, Douglas Ruas pelo PL, André Ceciliano pelo PT, além de nomes como William Siri (PSOL), André Marinho (NOVO) e figuras polêmicas como Anthony Garotinho (Republicanos) e Wilson Witzel (Democrata). Para o Senado, a briga também será acirrada, com candidatos como Benedita da Silva (PT), Pedro Paulo (PSD), Marcelo Crivella (Republicanos), Márcio Canella (União Brasil), Paulo Ganime (NOVO) e o próprio Cláudio Castro (PL), que ainda aposta em recursos para tentar viabilizar sua candidatura.
A pergunta que fica para o cidadão é se, diante desse cardápio de opções postas, haverá a coragem de buscar alguém com o rigor técnico e a coragem de enfrentar o sistema que o momento atual do estado exige, ou se voltaremos para o ciclo vicioso de eleger figuras que transformam o Rio de Janeiro em um balcão de negócios. O interino está mostrando, mesmo sem querer, que a máquina funciona melhor quando não é loteada. A dúvida é se o eleitor vai aprender a lição ou se continuará sendo levado pelo oba oba da próxima campanha.

