revolução constitucionalista de 1932 - 9 de julho spFoto: Reprodução
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O Estado de São Paulo relembra os 94 anos da Revolução Constitucionalista de 1932, conflito armado que mobilizou a sociedade paulista contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Considerada a Data Magna paulista, o dia 9 de julho tornou-se feriado estadual no ano de 1997, após a aprovação da Lei nº 9.497 pela Assembleia Legislativa (Alesp) e a promulgação pelo então governador Mário Covas. O movimento representou o ápice da insatisfação local com a centralização política decorrente da Revolução de 1930, que havia destituído o presidente eleito Júlio Prestes e rompido a tradicional política do café com leite.

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As hostilidades armadas começaram oficialmente em 9 de julho de 1932 e se estenderam até 2 de outubro do mesmo ano. Estima-se que as forças paulistas contaram com aproximadamente 35 mil a 50 mil voluntários civis e militares na tentativa de conter o Exército Federal, que dispunha de um contingente superior a 100 mil homens bem equipados. Isolado politicamente após a perda do apoio de outros estados, com exceção de frações do Mato Grosso, o exército constitucionalista capitulou após três meses de intensos combates, deixando um saldo oficial de 943 mortos.

O Estopim do Conflito e o Legado do MMDC

O estopim para a deflagração da fase armada ocorreu semanas antes do levante, em 23 de maio de 1932, durante uma manifestação popular na Praça da República, em São Paulo. Na ocasião, um confronto direto durante a tentativa de invasão ao escritório do Partido Popular Paulista (órgão ligado ao regime de Vargas) resultou no baleamento de quatro estudantes: Mário Martins de Almeida (31 anos), Euclydes Bueno Miragaia (21 anos), Dráusio Marcondes de Sousa (14 anos) e Antônio Américo de Camargo Andrade (30 anos). Um quinto manifestante, Orlando de Oliveira Alvarenga, foi ferido na mesma data e faleceu semanas depois.

As iniciais dos quatro primeiros jovens mortos geraram o acrônimo MMDC, que se transformou no selo oficial e na força motriz da propaganda de alistamento do exército paulista. Embora a historiografia tradicional associe a convocação da Assembleia Constituinte de 1933 e a promulgação da Constituição de 1934 à derrota militar de São Paulo, historiadores e pesquisadores apontam contradições na ordem cronológica dos fatos.

O historiador Francisco Quartim de Moraes ressalta que as principais concessões democráticas da época já haviam sido consolidadas por Getúlio Vargas meses antes do início dos tiros. O Código Eleitoral, que instituiu o voto secreto, o voto feminino e a criação da Justiça Eleitoral, foi publicado em 24 de fevereiro de 1932, seguido pela marcação oficial da data da Constituinte em 14 de maio de 1932. De acordo com Moraes, o legado definitivo de 1932 repousa na fundação de uma identidade regional coletiva, um sentimento de paulistaneidade realçado anualmente no feriado.

94 Anos da Revolução de 1932: O impacto do 9 de julho e as marcas do conflito no Vale do Paraíba
Foto: Gaia

Cruzeiro: O Palco da Capitulação e a Capital da Revolução

O Vale do Paraíba desempenhou um papel tático de primeira importância na geografia da guerra. A cidade de Cruzeiro, localizada na divisa com os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, concentrou os combates mais sangrentos da Revolução. O Túnel da Mantiqueira, uma estrutura ferroviária escura e fechada cravada na serra, transformou-se em uma zona de encurralamento militar de fácil acesso para ambas as tropas. O local contabilizou cerca de 250 baixas e ainda hoje abriga vestígios materiais do conflito, como cápsulas de munição deflagradas.

Foi na própria cidade de Cruzeiro que ocorreu o desfecho formal da guerra civil, com a assinatura do termo de rendição do Exército Constitucionalista perante os generais das forças federais. O protagonismo histórico rendeu ao município o título oficial de Capital Estadual da Revolução Constitucionalista, por meio de uma lei sancionada no ano de 2008.

A memória ferroviária da região foi resgatada recentemente. Em julho de 2025, após três décadas de inatividade, o trem histórico voltou a operar em um circuito turístico de seis quilômetros entre a Estação Ferroviária Central de Cruzeiro e a Estação Rufino de Almeida. A revitalização estrutural foi capitaneada em regime de parceria entre o poder executivo municipal e a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF).

São José dos Campos e a Memória de Euclides Miragaia

A herança histórica da Revolução de 1932 também está fixada no cenário urbano de São José dos Campos. O município é a terra natal de Euclides Bueno Miragaia, o “M” da sigla MMDC. O jovem estudante de direito contava com 21 anos quando foi atingido por estilhaços de granadas e disparos de armas de fogo no protesto da Praça da República. No Cemitério Municipal Padre Rodolfo Komorek, na região central joseense, ergue-se o túmulo histórico do combatente, considerado um marco de preservação biográfica.

Embora o jazigo permaneça aberto à visitação pública, os restos mortais de Miragaia foram exumados e transladados no ano de 1952. Atualmente, os despojos do mártir repousam no Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, monumento situado no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, que centraliza os corpos de mais de 700 soldados que perderam a vida no fronte de batalha. Em solo joseense, a posteridade do herói é celebrada por meio de um obelisco com as insígnias do MMDC edificado na orla do Banhado, além do batismo de uma das principais vias arteriais do quadrilátero central da cidade.

94 Anos da Revolução de 1932: O impacto do 9 de julho e as marcas do conflito no Vale do Paraíba
Agência Brasil
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Igor Raphael Portal Inside

By Igor Raphael

Igor Raphael é jornalista e colunista, atual acadêmico de Direito na UNITAU, com atuação voltada à cobertura política e cotidiana do Vale do Paraíba e Nacional. Desenvolve análises sobre decisões do poder público, bastidores institucionais e comunicação política, aliando apuração factual à leitura crítica do cenário público. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado ao acompanhamento de temas de interesse coletivo, com foco na realidade regional, valorizando a pluralidade de fontes, o debate qualificado e a responsabilidade editorial.