A política fluminense parece um eterno replay, mas com uma roupagem que, às vezes, beira o entretenimento de gosto duvidoso. Com a aproximação de mais uma eleição para o Palácio Guanabara, a pergunta que fica no ar, ecoando da Costa Verde ao Norte Fluminense, é uma só: o estado do Rio espera algo novo dos políticos atuais, ou nós, como eleitores, nos acomodamos com as opções que estão na prateleira há décadas? Existe uma real falta de alternativas ou o povo, por algum motivo místico, prefere o conhecido, mesmo que esse conhecido venha acompanhado de um histórico conturbado?
Se olharmos para as pesquisas mais recentes, o cenário parece cristalizado em torno de nomes que já dominam o noticiário há tempos. Eduardo Paes (PSD), lidera com folga o tabuleiro. No levantamento da Quaest de agosto de 2025, ele já despontava com 35% das intenções de voto. Em setembro, a AtlasIntel confirmou o favoritismo, mostrando Paes com 40% em cenários de confronto direto. O ápice veio em dezembro de 2025, com a Real Time Big Data colocando o atual prefeito da capital em um patamar de 55% a 58%.

Do outro lado, a direita se mostra um quebra-cabeça de peças que não se encaixam. Fragmentada, a oposição tentou se viabilizar com nomes como o de Rodrigo Bacellar (União Brasil), que oscilou entre 8% e 14% ao longo do segundo semestre de 2025. Washington Reis (MDB), também aparece nesse bolo, variando entre 9% e 13% das intenções. É uma briga para ver quem herdará o espólio da direita conservadora.


Para entender o tamanho do buraco onde o Rio se encontra, vale lembrar um dado assustador: o Estado conseguiu a proeza de ter 6 governadores presos, praticamente um atrás do outro. A lista inclui Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão e, por último, o afastado Wilson Witzel, que de quebra deixou de herança o atual governador Cláudio Castro. Esse ciclo de prisões por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa tornou-se um cartão de visitas vergonhoso que resume a gestão pública fluminense nas últimas décadas.
Eduardo Paes é um fenômeno de resiliência nesse caos. Atualmente em seu quarto mandato como prefeito do Rio de Janeiro, tendo governado de 2009 a 2016 e de 2021 ao atual mandato iniciado em 2025, ele é a prova viva de que o carioca tem uma relação de idas e vindas com ele. Mas sejamos sinceros: a cidade realmente melhorou tanto assim para ele ser escolhido quatro vezes? Há quem diga que o antecessor, Marcelo Crivella, deu uma ajudinha involuntária, já que sua gestão foi considerada por muitos como desastrosa, pavimentando o tapete vermelho para o retorno triunfal de Paes.
Por outro lado, o "Dudu" nunca teve a mesma sorte nas urnas quando o assunto é o Estado. Em 2018, perdeu para um até então desconhecido Wilson Witzel, que surfou na onda do bolsonarismo para depois ser afastado. Em 2022, Paes tentou emplacar Rodrigo Neves, atual prefeito de Niterói, mas a estratégia passou longe de surtir efeito. Agora, ele mira novamente a única cadeira de chefe que ainda não ocupou: a do Palácio Guanabara.
Enquanto isso, Cláudio Castro e sua companhia no PL tentam manter as rédeas do estado. O governo vive em meio a tensões internas. Castro tentou emplacar Rodrigo Bacellar, mas a relação azedou após decisões unilaterais de Bacellar na Alerj, como a exoneração de aliados sem o aval do governador. Washington Reis, o político tradicional de Duque de Caxias e peça-chave no MDB, também está nesse jogo, apesar de carregar uma mochila pesada de processos na justiça e lutar para se manter elegível. O cenário fica ainda mais nebuloso com as graves acusações contra Bacellar, envolvendo suposto privilégio de informações para investigados em casos de tráfico de drogas.

E a esquerda? Bom, a esquerda no Rio parece ter perdido o norte. O PT do presidente Lula indica um apoio pragmático a Eduardo Paes, abrindo mão de protagonismo. O PSOL chegou a ventilar o nome de Glauber Braga, mas o fato é que o campo progressista fluminense minguou diante das máquinas partidárias de centro e direita.
O que observamos é um desfile de pré-candidatos que são sempre os mesmos. Mudam os partidos, trocam-se as siglas, mas os rostos e os grupos políticos são figurinhas carimbadas. Temos gente acusada de corrupção, envolvimento com o crime organizado e diversos processos. Não há um nome sequer que se apresente com a ficha totalmente limpa e um passado sem manchas.
A culpa disso tudo é de quem? É do povo que, por falta de opção ou memória, vota sempre nos mesmos? Ou é dos partidos políticos que funcionam como clubes fechados, vetando boas opções e fazendo com que lideranças sem critérios, ideologias e projetos cheguem ao topo? Enquanto a briga é por cargos, salários e alianças de conveniência, a região metropolitana sangra. Sofremos com a Falta de segurança, um transporte público que é caro e precário, além da falta crônica de saneamento básico e infraestrutura em diversas cidades.
Não vemos ninguém discutindo propostas reais para o desenvolvimento do estado. A discussão se resume a quem vai apoiar quem. E se você espera que isso mude nos debates de TV, é melhor não criar expectativas. Depois da cadeirada de Datena em Pablo Marçal, o debate político virou uma espécie de entretenimento bizarro, onde o espetáculo importa mais que a solução dos problemas.
O Rio de Janeiro merece mais, mas será que estamos dispostos a exigir isso? Caro leitor, se você chegou até aqui nesta reflexão, deixe seu comentário abaixo. O que você espera desse próximo ciclo político?

