Nos últimos quatro meses, uma série de decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), abalou as estruturas políticas e judiciárias do Rio de Janeiro. A prisão de figuras centrais, como o então presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), o deputado estadual TH Joias (MDB) e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto, trouxe à tona acusações de que agentes públicos estariam beneficiando as operações do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções de tráfico de drogas do país.
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O estopim: A trajetória e prisão de TH Joias
A peça-chave que permitiu aos investigadores puxar o fio desta rede foi o deputado TH Joias (Tiego Raimundo de Oliveira Santos). Conhecido por vender joias a celebridades, TH já havia sido investigado em 2017 por lavagem de dinheiro para o Terceiro Comando Puro (TCP). Mesmo sob suspeita, ele foi eleito suplente e assumiu o mandato na Alerj em maio de 2024.
A Polícia Federal (PF), no entanto, identificou que TH Joias não era apenas um aliado, mas um membro relevante do Comando Vermelho. Segundo as investigações da Operação Zargun, o parlamentar intermediava a compra de armas e drones, além de participar de reuniões de planejamento com a cúpula da facção.
A omissão e a queda de Rodrigo Bacellar
As análises dos dispositivos eletrônicos de TH Joias comprometeram diretamente Rodrigo Bacellar. A PF encontrou provas de que Bacellar, na condição de presidente da Alerj, alertou o colega sobre a operação policial iminente. Em um vídeo encontrado, TH Joias chega a brincar com o “Presida” (como chamava Bacellar) sobre a impossibilidade de retirar todos os pertences — inclusive carnes de um freezer — da residência antes da chegada dos agentes.
Bacellar, que teve uma ascensão meteórica na política e era visto como sucessor natural do governador Cláudio Castro, teria omitido o conhecimento do mandado de prisão contra TH. Sua prisão durou cinco dias, sendo revogada pela própria Alerj. Contudo, ele foi afastado da presidência da Casa e obrigado a cumprir medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.
O Judiciário sob suspeita: O papel do desembargador
As buscas também atingiram o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2). O desembargador Macário Ramos Júdice Neto é suspeito de ser a fonte do vazamento das operações. Mensagens indicam uma relação de “irmandade” entre o magistrado e Bacellar, com trocas de favores que incluíam a nomeação de parentes e aliados em cargos de confiança tanto na Alerj quanto no gabinete do magistrado. Júdice Neto já possuía um histórico de afastamento da magistratura por 18 anos devido a suspeitas anteriores de venda de sentenças, tendo sido reintegrado recentemente.
Influência na Segurança Pública e no Executivo
O relatório do STF destaca que a influência de Bacellar se estendia ao Poder Executivo. O deputado teria interferido diretamente na escolha do comando da Polícia Civil, exigindo a nomeação do delegado Marcus Amim, o que gerou críticas contundentes de sindicatos e associações de delegados devido à natureza política da indicação.
Além disso, a investigação aponta que outros membros do governo, como o ex-subsecretário de Defesa do Consumidor, Alessandro Pitombeiro Carracena, também estariam envolvidos no repasse de informações privilegiadas para áreas dominadas pelo tráfico.
Ramificações na Baixada Fluminense
O alcance da influência criminal não se restringe à capital. Recentemente, dois vereadores de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, foram detidos: Marcos Aquino (Republicanos), suspeito de ligação com o CV, e Ernane Aleixo (PL), acusado de fornecer suporte logístico e maquinário para o TCP erguer barricadas.
Posicionamento das defesas
As defesas de Rodrigo Bacellar e do desembargador Macário Ramos Júdice Neto negam veementemente as acusações, alegando inocência e falta de provas de obstrução de justiça ou encontros ilícitos. A defesa de TH Joias afirmou não ter tido acesso integral à decisão judicial, enquanto a defesa de Carracena classificou sua prisão como arbitrária, baseada apenas em menções de terceiros.
As investigações prosseguem e novas fases da operação podem atingir outros escalões da política fluminense nos próximos meses.

