O debate ecológico contemporâneo costuma focar na preservação da Amazônia e no equilíbrio das florestas tropicais como os únicos pilares para o futuro do planeta. Embora essa pauta seja urgente, ela acaba silenciando uma crise que ocorre debaixo dos nossos pés: o colapso do ecossistema urbano. Enquanto as atenções internacionais se voltam para o verde, as cidades brasileiras no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e entre outras, enfrentam um cenário de degradação que não é apenas fruto de mudanças climáticas, mas de uma gestão pública que ignorou o crescimento populacional e o planejamento habitacional básico.
Eventos recentes em Minas Gerais, especificamente em Juiz de Fora e Ubá, ilustram essa fragilidade. De acordo com o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Juiz de Fora registrou em períodos recentes volumes de chuva que ultrapassaram os 300 mm em intervalos extremamente curtos, causando inundações que paralisaram o município. No Rio Grande do Sul, o cenário de tragédias sucessivas afetou mais de 90% das cidades do estado nos últimos anos, revelando que até infraestruturas consideradas mais robustas não suportam mais a demanda atual e a falta de sistemas de escoamento eficientes.
Essa realidade expõe uma divisão clara: o investimento público é direcionado aos centros e bairros nobres, onde o interesse corporativo e turístico garante o retorno imediato, enquanto as periferias são deixadas à própria sorte. No estado do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense e a Região Serrana sofrem anualmente com a falta de políticas habitacionais que ofereçam alternativas seguras à ocupação de encostas. O resultado é a impermeabilização do solo pelo asfalto e a retirada sistemática da vegetação urbana para dar lugar à fiação elétrica, o que cria ilhas de calor e impede a absorção natural da água.
O caso de Maricá, no Rio de Janeiro, é um exemplo gritante de má gestão de prioridades. Mesmo sendo um dos municípios mais ricos do país devido aos royalties do petróleo, a cidade apresenta um contraste inaceitável. Dados do Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil e do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) indicam que cerca de 90% da população de Maricá ainda não possui coleta e tratamento de esgoto. Em uma cidade com orçamento bilionário, a manutenção de um sistema de fossas e o descarte irregular em lagoas demonstram que o recurso financeiro, sem planejamento voltado para a infraestrutura básica, não garante dignidade ambiental ao morador.
Essa negligência também é visível no Norte do país. A realização da COP30 em Belém trouxe à tona investimentos em saneamento e macrodrenagem que a capital paraense aguardava há décadas. No entanto, fica a crítica de que tais obras só ocorreram pela visibilidade do evento internacional, e não por uma política de Estado perene. Antes do evento, Belém figurava entre as piores capitais brasileiras no Ranking do Saneamento, com menos de 20% de cobertura de esgoto, evidenciando que o bem-estar do cidadão muitas vezes só vira prioridade sob pressão externa.
Para reverter esse quadro, é fundamental que a iniciativa privada seja integrada às políticas habitacionais. Através de Parcerias Público-Privadas (PPPs), empresas podem atuar na construção de conjuntos habitacionais que já nasçam com infraestrutura de saneamento, água e transporte, reduzindo o déficit de moradias e evitando que famílias ocupem áreas de risco. O capital privado pode acelerar obras que o setor público, muitas vezes engessado por burocracias ou má gestão, não consegue entregar em tempo hábil para evitar novas tragédias.
Responsabilidade Compartilhada: O Papel de Cada Um
Para que o meio ambiente urbano deixe de ser um cenário de riscos e se torne um espaço de qualidade de vida, é preciso que governo e sociedade civil cumpram seus papéis de forma coordenada.
O que cabe ao Governo (Prefeitos e Vereadores):
Investimento em Saneamento: Priorizar a rede de esgoto e a limpeza técnica de canais e bueiros.
Planejamento Habitacional: Criar moradias populares em locais seguros, combatendo ocupações em áreas de risco.
Arborização e Áreas Permeáveis: Investir em praças, parques e manutenção de árvores nas calçadas.
Gestão de Resíduos: Garantir a regularidade da coleta de lixo e coleta seletiva em todos os bairros.
O que cabe ao Cidadão:
Descarte Consciente: Jamais jogar lixo em ruas, rios ou valões. Guardar o próprio lixo ao frequentar praias e parques.
Cuidado com a Calçada: Evitar a cimentação total de quintais, mantendo áreas com grama para ajudar na drenagem.
Fiscalização Ativa: Cobrar dos vereadores a manutenção dos serviços básicos e denunciar irregularidades.
Garantir saneamento, coleta de lixo e áreas verdes é o mínimo necessário para que o cidadão possa viver bem em qualquer cidade brasileira. É fundamental ressaltar que a proteção das florestas, das áreas de preservação e do meio ambiente em larga escala continua sendo uma pauta vital que deve ser debatida e executada com rigor. No entanto, essas frentes não podem ser excludentes. Precisamos continuar lutando pelas nossas matas e rios, mas sem esquecer que o asfalto das periferias também é meio ambiente. A preservação global e a infraestrutura urbana devem caminhar juntas, pois de nada adianta um planeta equilibrado se as pessoas seguem vivendo em condições indignas dentro de suas próprias cidades.

