A inauguração de uma nova sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), na noite deste sábado (21), deixou de ser um evento puramente religioso para se transformar em um palanque estratégico. O líder da denominação, Silas Malafaia, aproveitou o microfone para dar um forte sinal de apoio a Douglas Ruas (PL), atual secretário estadual das Cidades e deputado licenciado, posicionando-o como o nome de sua preferência para a sucessão ao Governo do Estado.
Durante a cerimônia, Malafaia pediu que os fiéis aplaudissem Ruas e solicitou orações específicas para o político. "Podem acontecer coisas aí… Coisa boa, não é coisa ruim não", anunciou o pastor, sugerindo uma articulação direta para o pleito estadual. Acompanhando Douglas Ruas, estavam outras figuras de peso do Partido Liberal, como o senador Bruno Bonetti e o deputado federal Sóstenes Cavalcante, reforçando o caráter político da celebração religiosa.
A problemática da política no altar
Embora a movimentação consolide Douglas Ruas como um forte candidato da direita, a cena levanta um debate necessário sobre os limites entre a fé e a politicagem. A transformação de templos — espaços que deveriam ser destinados ao acolhimento espiritual e à neutralidade — em diretórios partidários é uma prática que gera desconforto e críticas.
O uso do púlpito para lançar "pupilos" ou selar alianças eleitorais acaba por instrumentalizar a fé dos fiéis. Quando a liderança religiosa utiliza sua influência espiritual para direcionar votos ou validar candidaturas, o ambiente sagrado é contaminado por interesses de poder que pouco têm a ver com a doutrina cristã. Esse tipo de "coronelismo religioso" desvirtua o papel das instituições, transformando a membresia em massa de manobra para projetos pessoais de políticos e pastores.
Ao misturar a liturgia com a estratégia eleitoral, as igrejas correm o risco de se tornarem apenas mais um braço da máquina pública, onde a oração é trocada pela conveniência partidária. No caso da Advec, a inauguração do templo serviu menos para a celebração espiritual e mais para mostrar que a balança do poder evangélico já escolheu seu novo lado, independentemente do que pensam os que frequentam os bancos da igreja apenas em busca de paz.

