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Maricá chega a 2026 com um orçamento de fazer inveja a muita capital brasileira. Serão R$ 7,3 bilhões, aprovados pela Câmara Municipal, mantendo o município entre os maiores orçamentos do Estado do Rio de Janeiro. Esse volume impressionante continua sendo sustentado, majoritariamente, pelos royalties e participações especiais do petróleo, que juntos ultrapassam a casa dos R$ 4,5 bilhões.

No papel, as prioridades parecem claras. Educação lidera os investimentos, com R$ 1,33 bilhão, seguida da Saúde, com R$ 1,04 bilhão. Obras, manutenção urbana e serviços públicos, por meio da SOMAR (Autarquia de serviços de obras de Maricá), aparecem logo depois, com R$ 806 milhões. Outras áreas também recebem cifras relevantes, como Administração, Previdência, Transporte, Meio Ambiente e Economia Solidária.

O orçamento, aliás, mostra estabilidade após o pico de 2023. Desde então, Maricá se mantém em um patamar alto, mas sem grandes saltos. Tudo isso reforça um ponto central: o município continua extremamente dependente do petróleo. Mais da metade da arrecadação vem dessa fonte, um alerta que já vem de anos.

E é justamente aqui que começa o incômodo.

Como uma cidade bilionária graças aos royalties do petróleo não trata o saneamento básico como prioridade absoluta? Como explicar que se invista mais de R$ 1 bilhão em educação, que é algo importante, ninguém discute — enquanto o saneamento recebe apenas R$ 264,3 milhões?

Poderia haver uma redistribuição desses recursos, destinando uma porcentagem maior à SANEMAR (Autarquia de Saneamento de Maricá). Afinal, assim como a demanda na área da educação aumentou, a demanda por saneamento é ainda mais urgente e crescente.

Segundo o Painel do Saneamento Brasil, do Instituto Trata Brasil, 94,6% dos moradores de Maricá não tem coleta de esgoto. Isso não é detalhe técnico, é um problema estrutural grave. É saúde pública, é dignidade, é meio ambiente, é desenvolvimento econômico. Sem saneamento, não existe cidade moderna. Existe improviso.

Fala-se muito, com razão, em transformar a economia local. O prefeito Washington Quaquá (PT) tem defendido a atração de empresas, indústrias e o fortalecimento do turismo. A ideia é correta e merece apoio. Mas fica a pergunta inevitável: quem vai investir pesado em uma cidade sem saneamento básico? Que indústria se instala onde falta infraestrutura básica? Que turismo se sustenta com esgoto sem tratamento?

Infraestrutura não é só obra visível, é o que está debaixo da terra. É ter fornecimento de energia de qualidade, porque depender da Enel, convenhamos, é quase um ato de fé, é planejamento de longo prazo. Sem isso, a chamada “nova economia” vira discurso bonito e frágil.

Nesse contexto, o papel da Câmara Municipal também precisa ser questionado. Orçamento não é carimbo. Os Vereadores deveriam debater, questionar, propor ajustes, especialmente em um município que tem dinheiro, mas precisa escolher melhor onde colocá-lo. Aprovar tudo sem discussão é perder a chance de preparar Maricá para o futuro.

Que venha 2026. Que Maricá avance, se desenvolva e amadureça. Mas que isso aconteça com os pés no chão, ou melhor, com esgoto tratado, infraestrutura sólida e menos dependência do petróleo. Porque o petróleo um dia acaba. E quando esse dia chegar, não dá para dizer que não fomos avisados.

Fonte dos dados sobre saneamento: Painel Saneamento Brasil – Instituto Trata Brasil.

By Daniel Araújo

Daniel Araújo, conhecido como Danielzinho, acompanha e analisa tudo o que acontece na capital e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, desde o cenário político até as principais notícias do dia a dia.

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