Mulher condenada no 8 de JaneiroFoto: Reprodução

O 8 de janeiro de 2023 entrou para a história recente do Brasil como um dos episódios mais controversos e narrativamente disputados. Mais do que as imagens amplamente divulgadas, existe um contexto prévio que vem sendo ignorado, inclusive pela própria direita.

​Após as eleições de 2022, o país mergulhou em profunda instabilidade institucional. Questionamentos verídicos sobre o processo eleitoral, decisões judiciais monocráticas e uma crescente percepção de insegurança jurídica criaram um cenário de desconfiança generalizada. Para uma parcela significativa da população, não se tratava apenas de uma derrota política, mas de um sentimento de ruptura com garantias fundamentais.

​Nesse contexto, o ex-presidente Jair Bolsonaro desempenhou um papel central. Sua postura após o pleito — marcada por silêncio estratégico e manifestações indiretas — contribuiu para manter mobilizada uma base construída ao longo de anos. Essa mobilização foi alimentada por pautas como a liberdade de expressão, críticas ao sistema eleitoral e a oposição ao que muitos enxergavam como o avanço do ativismo judicial.

​Um dos pontos mais sensíveis envolveu decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob a presidência do ministro Alexandre de Moraes, especialmente quanto à moderação de conteúdo e remoção de publicações fora dos prazos previstos na legislação. A Lei das Eleições estabelece marcos temporais para garantir isonomia; alterações normativas próximas ao pleito impactam o planejamento das campanhas e o ambiente informacional. Houve uma mudança de regras “golpe contra a lei” em meio ao processo eleitoral, o que ampliou as tensões e a percepção de que movimentos sincronizados do TSE estavam a favorecer a campanha do PT aumentando a desconfiança do eleitorado contra o sistema eleitoral.

​As manifestações que culminaram no 8 de janeiro foram o ápice de um processo contínuo. Acampamentos, protestos e articulação digital demonstravam uma mobilização popular real, heterogênea e difusa. Contudo, não havia um comando unificado ou estratégia clara para uma tomada de poder.

​A partir daí, consolidou-se a narrativa de uma tentativa de "golpe de Estado". Tecnicamente, golpes envolvem apoio institucional (especialmente militar), liderança organizada, controle de estruturas estratégicas e planejamento coordenado. No 8 de janeiro, tais elementos estavam ausentes. Não houve adesão formal das Forças Armadas nem plano concreto de manutenção do poder. O que se viu foi uma explosão de insatisfação popular diante da degradação institucional do país.

​Eu acompanhei as mobilizações desde o início. No dia 8 de janeiro, estava na Esplanada dos Ministérios. Sou testemunha ocular de que aquelas pessoas organizavam a transferência do acampamento do QG do Exército para a porta do Congresso Nacional. Enquanto a multidão se aglomerava, uma "história fantasiosa" era difundida pela mídia. "Tias do zap" e trabalhadores que buscavam a melhora do país acabaram responsabilizados por vandalismo e tentativa de golpe.

​Ficam os questionamentos: onde estavam as forças de Segurança Nacional? Por que a demora na divulgação de imagens das câmeras para identificar os reais praticantes de vandalismo e seus líderes?.

​Não pretendo relativizar responsabilidades individuais. Como operador do direito, defendo que a responsabilização deve ocorrer dentro do devido processo legal e das garantias fundamentais. O maior problema atual é a seletividade e o endurecimento punitivo exagerado do sistema de justiça. É emblemático o caso da Débora, dona de casa, mãe de duas crianças, condenada a 17 anos de prisão por escrever uma frase com batom na estátua da Justiça — ironicamente, a frase "perdeu, mané", dita anteriormente por um ministro do STF.  E os excessos e absurdos desses inquéritos, não se restringem ao caso dessa dona de casa.  O manifestante e comerciante Clesão morreu na prisão, por ter tido vários de seus pedidos de transferência negados por Alexandre de Moraes. E no meu caso?  fui preso com quase 1.300 pessoas em área militar no dia 9 de janeiro. Passei 17 dias na Papuda e 18 meses com tornozeleira eletrônica por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Eu depredei prédios públicos? Não. Estava armado? Não. Tampouco defequei em mesas de ministros. Estava apenas com homens e mulheres de bem em busca de transparência e mudança dos rumos da nação.

​A polarização atual faz com que narrativas disputem espaço nos campos político, jurídico e midiático. De um lado, o 8 de janeiro é visto como ataque à democracia. De outro, estamos nós, brasileiros que enxergam o episódio como consequência de um ambiente institucional deteriorado. O 8 de janeiro não pode ser esquecido e tao pouco analisado isoladamente; ele é o resultado de desconfiança e ruptura no diálogo. Ignorar essa complexidade é reduzir um fenômeno profundo a uma narrativa simplificada. Talvez seja esse reducionismo que impeça o Brasil de seguir em frente e reparar todas essas distorções e nulidades em torno desse processo inquisitorial.

​Esta é a primeira parte de uma série de relatos e experiências que trarei para você, leitor.

Thiago Nunes é cristão, ativista da direita, foi preso no 8 de janeiro, bacharel em Direito pela Universidade La Salle, pós-graduando em Direito Constitucional, empresário atuante no escritório Oliveira Nunes Advocacia.