O asfalto da Praia Brava ainda guarda, de forma invisível, o sangue do cão Orelha. Mas o que escorre de verdade por entre as frestas desse caso não é apenas a crueldade animal; é o cheiro forte de um Brasil que se especializou em fabricar intocáveis.
Antes de analisarmos o caso, convido vocês que reajam aos fatos objetivos que, podem significar algo isolado, mas que na verdade é bem mais comum do que parece:
Resumo do Caso Orelha
| Item | Detalhes do Ocorrido |
| Vítima | Cão Orelha (comunitário, idoso e dócil). |
| Local | Praia Brava, Itajaí - SC. |
| Agressão | Espancamento brutal filmado por câmeras de segurança. |
| Reincidência | O grupo já havia tentado afogar o cão Caramelo dias antes. |
| Punição Real | Segurança que cedeu as imagens foi demitido sob pressão. |
| Desfecho (Suspeitos) | Viagem para o exterior (Orlando/EUA) após o crime. |
| Indiciamento | Menores por maus-tratos; Pais por coação no curso do processo. |
Precisamos dar nome aos bois: o problema aqui não é a conta bancária. Seria raso e hipócrita resumir essa barbárie a uma luta de classes. A impunidade no Brasil é democrática, ela abraça o herdeiro do império e o criminoso de carreira com a mesma eficiência. O que une o jovem que espanca um cão e martela um prego em sua cabeça por sadismo e o criminoso que executa um rival ou rouba um mero celular é a certeza absoluta do "nada vai acontecer".
Neste caso, vimos o privilégio ser usado como arma de má-fé. O segurança do condomínio ser demitido é simplesmente o Brasil meus senhores, o país onde até quem se chama "segurança" não pode fazer o seu trabalho, o homem que cumpriu um dever moral e expôs as imagens. Ele foi o único a sentir o peso real de uma punição. Ele perdeu o emprego, silenciado pela pressão de quem acredita que o condomínio é um principado imune à lei. Enquanto isso, para os agressores, o "castigo" veio em forma de passaporte carimbado. A Disney, para dois dos agressores ao cão Orelha, não é diversão; é um esconderijo moral.
O Brasil é o país onde o crime compensa. O faccionado que comanda o crime de dentro da cela ou tirando bairros inteiros de pessoas comuns e o empresário que usa influência e dinheiro para coagir testemunhas compartilham a mesma convicção: a de que o sistema é maleável. Orelha morreu não somente porque os jovens que fizeram isso aparentam traços semelhantes à psicopatas, mas porque o sistema é lento e seleciona com o que se importa. Orelha já havia sido alvo de um ataque anterior, mas a "boa linhagem" dos envolvidos serviu de escudo até que o pior acontecesse.
Soma-se a isso a barreira da idade, usada como salvo-conduto para o horror. Por serem menores de idade, os agressores enfrentarão penas brandas, medidas socioeducativas que beiram o deboche diante da gravidade do ato. Isso reforça um ponto urgente: a redução da maioridade penal. É preciso que jovens de 16 anos comecem a responder como adultos, para que aprendam a pensar como gente antes de decidirem quem vive e quem morre sob suas mãos.
Quando o Estado falha em punir o criminoso da periferia e o "jovem de família" da Brava, ele assina um atestado de falência, ou melhor, ja assinou faz tempo. O caso do cão Orelha prova que, por aqui, a corda só não arrebenta no lado mais forte. E enquanto o segurança busca um novo sustento e o Orelha descansa em uma cova rasa, o país assiste ao triunfo dos que se acham donos do mundo.
Essa inversão de valores, onde o justo é punido e o ímpio é celebrado, é um mal antigo que teima em se renovar. Como bem descreveu o profeta Isaías (5:20-23):
"Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridão luz e da luz, escuridão... que justificam o ímpio por suborno e ao justo negam a justiça".
No Brasil de hoje, a justiça foi negada não só ao Orelha, mas ao trabalhador e pagador de impostos, enquanto o suborno moral das influências justificou o injustificável. Que a consciência daqueles que silenciaram a verdade pese mais do que o ouro que ostentam, pois na conta final, nenhum privilégio apaga o rastro do sangue inocente.

